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quinta-feira, 22 de agosto de 2013
quinta-feira, 9 de maio de 2013
o rosto tranquilo da morte
o rosto tranquilo da morte
não gosto da morte, como qualquer pessoa imagino que não goste, mas não talvez pelos mesmos motivos. não gosto da morte porque tudo nela remete a um ritual, a começar pelo ritual civilizado de manter o cadáver a distância e sobretudo oculto. a morte é parada, o que me faz pensar que todo ritual celebra a cessação do movimento. pode ser por isso que os rituais gostem tanto das repetições. a morte é mantida a distância — ou pelo menos o que restou dela, o corpo, o vestígio de que a morte existe e alcançará implacavelmente a todos — porque persiste um medo não mencionado de que a morte é algo contagiosa, tê-la por perto significa correr o risco de contrair mais rapidamente os sintomas que ela prolifera. ou por que outro motivo os amigos e parentes dos agentes funerários pedem que se limpem, que se higienizem, antes de lhes apertar a mão ou antes que entrem em casa depois de uma jornada de trabalho em que lidaram com alguns cadáveres? não gosto da morte porque não gosto de rituais. não gosto de rituais porque, por mais ciente que esteja de que que a vida é composta sobretudo de repetições (lavar cabelo, escovar dentes, mastigar, dormir, defecar, fazer sexo), sinto necessidade de apostar na quantidade de improviso que a vida tem, uma capacidade de fazer o nunca antes tentado e isso acontecerá pela primeira vez. vida é surpresa, enquanto a morte está parada e inevitável, ela sim, a verdadeira todo poderosa. a morte é deus, não a vida. a vida é humana, precária, ávida, intensa. o tédio, quando houver, é treino para a brutalidade acachapante da morte. vida é inauguração. a morte é o único valor realmente democrático, a vida é aristocrática. a começar pela corrida dos espermatozoides e pela seleção ovular rigorosa, com seu orifício altamente seletivo. na morte, a gravidade começa a se manifestar e ao cadáver será dada uma das duas destinações: será encaixotado e enterrado (e freud dirá para “enterrar” o assunto ao se fazer o luto, ou seja, será preciso tirar do alcance dos olhos para não se remoer, mas só depois de se certificar de que o corpo esteve diante dos olhos, para que se tenha certeza de que o assunto pode começar a ser encerrado, arquivado, enterrado) ou será cremado, para que volte logo ao estágio do pó, afinal a mesma destinação do corpo encaixotado, apenas neste último caso o processo se dará mais lentamente. mas atenção: a vida ausente do corpo não significa ausência de vida. o cadáver será atacado por dentro por bactérias de decomposição, muito vivas todas elas e dependentes desta carne morta para perpetuar a própria sobrevivência. quando mortas, as bactérias terão bactérias ainda menores para consumi-las? como é o pós-vida desses seres tão diminutos? o que o humano consome em vida ao ingerir a carne morta de animais será retribuído um dia, quando estiver morto, quando terá as carnes mortas também consumidas. é o ciclo da morte, não da vida. a morte é o anúncio prévio de que o improviso terá fim, de que o precário não pode prevalecer, de que a vida tem os dias contados e não perde por esperar.
terça-feira, 30 de abril de 2013
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Vanzolini, cascavéis e o amor que rasteja
V de vingança, V de Vanzolini.
A mulher chega na frente do bar, assim como não quer nada, vasculha com as vistas, e vai embora. Mais adiante repete o mesmo ritual em outra freguesia. Está desesperada à procura do marido, do traste, do vagabundo, como deve ser tratado doravante.
De tanto ver tal cena na capital paulista, quando trabalhava como patrulheiro de ruas no baixo meretrício, Paulo Vanzolini fez a música “Ronda”, como relata o poeta-sambista no filme “Um homem de moral”, dirido por Ricardo Dias.
Conheci Vanzolini pessoalmente há quase cinco anos. Na véspera das homenagens ao seu 85º aniversário. Diante de todo aquele samba-exaltação ao músico, ele dizia preferir receber todas as honras, vivo ou morto, pelo seu trabalho como zóologo da USP, doutor em biologia em Harvad, cientista especializado em répteis.
Havia começado, na obsessão por descobrir os mistérios da natureza, um estudo sobre o comportamento das cascáveis. “Não estou falando das mulheres indomáveis, amigo”, mandava o chiste.
Criatura que rasteja, seja macho, fêmea ou bicho era com Vanzolini. A música dele está repleta da gente que esperneia, alma em desassossego, como a dama que procura o marido, amante ou cacho em uma longa viagem ao fim da noite paulistana.
E foi ao ouvir de novo a canção que joguei na mesa do botequim o debate: esta mulher de “Ronda” ainda existe? A destemida que enfrenta o frio e as almas sebosas da madruga em busca do seu homem?
Há controvérsias, como diriam os diplomáticos. Ora, hoje em dia existe o celular, ela não careceria de tanta humilhação, diriam outros mais espertos. E se ele desligou o aparelho, como muitas vezes acontece nos chá-de-sumiço do gênero?
Um pouco da canção enquanto o leitor reflete sobre o tema: “De noite eu rondo a cidade/ A te procurar sem encontrar/ No meio de olhares espio em todos os bares/Você não está…”
O problema é que agora somos nós, os homens, que rondamos em vão à procura da cria das nossas costelas, opinariam amigos que se pelam de medo de um chifre. Até que faz sentido. Sintoma dos tempos, coisas da vida. Bem feito. Eu acho é pouco. Levamos o troco da história.
Vanzolini gira na agulha: “Volto pra casa abatida/ Desencantada da vida/ O sonho alegria me dá/ Nele você está…”
Coitada, você diria a essa altura, abaixou-se mais do que os répteis investigados pelo Vanzolini. Recolha a sua piedade, amigo, e aguarde as cenas dos próximos capítulos.
“Ah, se eu tivesse/ quem bem me quisesse/ Esse alguém me diria/ Desiste, esta busca é inútil/ Eu não desistia…”
Até ai tudo bem, rola o vinil na vitrola, mas a dama, logo adiante, já ensaia a tragédia: “Porém, com perfeita paciência/ Volto a te buscar/
Hei de encontrar/ Bebendo com outras mulheres/ Rolando um dadinho/Jogando bilhar.”
Como vê, amigo, o ciúme sempre corre na frente da realidade e puxa o rabo de todos demônios interiores.
Até o trágico epílogo: “E neste dia então/ Vai dar na primeira edição/ Cena de sangue num bar/ Da avenida São João.”.
Não foi por falta de aviso. Os seres que rastejam depuram no alambique do peito os venenos mais trágicos.
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