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quarta-feira, 24 de julho de 2013

O crítico e o anseio da verdade

 Ricardo Gondim

O crítico e o anseio da verdade

O crítico e o anseio da verdade
Ricardo Gondim
Crítico – Impotente que faz tudo pra brochar os outros. Quando não consegue isso, pelo menos evita que tenham orgasmo.
Millôr Fernandes
Confesso a minha indigestão quando soube que estava na alça de mira de alguns professores de seminário. Na retrógrada classe de “seitas e heresias”, eu era tratado como o mais recente despirocado da fé. A princípio me perturbei, confesso. Os desdobramentos do diz-que-me diz, as repetidas tentativas de retalhar o meu pensamento para me fazer passar por ridículo, poderiam ferir outros. Preocupei-me com os males que um ambiente inquisitorial trariam ao coração do simples ou da senhorinha, que porventura me quisesse bem.
Se no começo me incomodei, agora desdenho. Não resta muito o que fazer. O anacronismo de catalogar e desqualificar o pensamento alheio se tornou patético para mim. Estou consciente de que a tentativa de demarcar os contornos do exercício acadêmico dentro de rótulos não é apenas obsoleto, mas tosco. Tenho dó de alguém que pretende estudar teologia, mas se deixa formatar por professores que não se cansam de repetir doutrinas enlatadas como se fossem a verdade última. Mais que tolice, vestir a toga de Torquemada, é sinistro .
Tentemos entender os procedimentos da Inquisição. Talvez eles ajudem a identificar os caminhos que levaram a “legítima” preocupação de defender a fé até as fogueiras.
1. Alfinetar com precisão os pontos em que a nova doutrina se distancia do que foi sempre aceito como verdade. Para uma fé que se pretende hegemônica, é importante preservar os tils, as vírgulas, os ínfimos detalhes do que foi passado de mão em mão, de boca em boca, como a revelação divina. O biblicismo literal, nascido do fundamentalismo, tenta dar à Bíblia um caráter sobre humano. Ricardo Quadros Gouvêa responsabiliza essa atitude de gerar o dogmatismo. Para ele, o resultado prático do dogmatismo é que a Bíblia já não pode falar por si mesma, mas somente através do filtro imposto pelos fundamentalistas, a saber, o filtro do sistema de dogmas que se interpõe entre a Bíblia e o leitor… usando a Bíblia apenas como subsídio para provar a validade dos dogmas. Os versículos viram ‘dicta probanda’, isto é, os textos-prova, que servem apenas e simplesmente para comprovar o que a doutrina ensina.
2. Mostrar a perniciosidade da nova doutrina e como ela põe em risco a estabilidade e o futuro da fé. Os inquisidores tratavam os contestadores como demônios, não só pelo conteúdo de seus arrazoamentos, mas pelo risco que eles representavam à continuidade das estruturas de poder. Foucault diz que há um combate pela ‘verdade’ ou, ao menos, ‘em torno da verdade’ – entendendo-se, mais uma vez, que por verdade não quero dizer ‘conjunto das coisas verdadeiras a descobrir ou a fazer aceitar’, mas o ‘conjunto das regras segundo as quais se distingue o verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro efeitos específicos de poder’. Os conservadores da reta doutrina não se preocupam em defender a verdade  de fato, mas o ‘estatuto da verdade e do papel econômico-político que ela desempenha’.
3. Nomear a nova doutrina. O esforço de desqualificar um pensamento faz necessário colocá-lo em contornos bem definidos. Ele precisa de um rótulo, preferivelmente desmerecido em algum concílio ou alguma instância institucional do passado. Esse artifício funciona mais ou menos assim: se o trabalho de revelar o perigo deste pensamento já foi feito, não é necessário sequer considerá-lo; antes de qualquer debate, fique claro que no Concílio X, a igreja já o considerou digno da lata de lixo. Voltaire encerra seu diálogo com Benedito XIV em ‘Epílogo no Elísio’, assim: Por enquanto vós deveis perdoar a mim e àqueles que pensam como eu, os que ainda somam no sentido de esclarecer uma minoria suficientemente numerosa e resoluta para impedir qualquer reincidência da dominação eclesiástica sobre o pensamento dos homens educados. A história teria sido inútil para nós se não nos houvesse ensinado manter-nos em guarda contra a natural intolerância de uma ortodoxia no poder. Eu vos presto homenagem e vos reverencio, Benedito, mas devo permanecer Voltaire. O pensador francês se revolta porque não admite: se alguma instância de poder se percebeu autorizada para definir a verdade, ele também, o Voltaire pensante, também podia. Na liberdade individual, há espaço para romper com o círculo vicioso da infalibilidade que Queiruga denunciou: a igreja é infalível porque ela define infalivelmente que é infalível.
4. Usar o argumento ad hominem - do latim: argumento contra a pessoa. Essa falácia procura negar alguma proposição com crítica ao seu autor e não ao seu conteúdo. Um argumento ad hominem é forte arma retórica. Apesar de não possuir bases lógicas, pode anular qualquer debate.  Produz preconceito do tipo: a nova doutrina vem de um desvairado, portanto, basta provar por ‘a+b’ que ele é louco e inconsequente e ela se esvazia. Desta forma, tudo o que for dito ou conjecturado se anula a partir do rótulo que se atribui à pessoa. A verdade, no argumento ad hominem, pertence apenas aoslúcidos, aos santos, aos normais – só eles podem propor qualquer ideia. E eles, por acaso, estão na trincheira de quem detém o poder. Nietzsche não teria nada para dizer, já que morreu em um sanatório. Sequer a arte de Van Gogh deveria ser considerada, por ter vindo dos períodos conturbados de sua mente brilhante. Os que usam desse argumento, não podem esquecer que os fariseus se valeram dele contra Jesus, tentando fazê-lo passar por bêbado, comilão e endemoninhado.
5. Espiritualizar a cruzada contra a nova doutrina. Basta afirmar que um pensamento nasceu na mente do diabo e vem do inferno para que todas as defesas sejam levantadas contra ele. Em um ambiente receoso dos perigos do mundo sobrenatural, espiritualizar é eficaz. Nos tempos de Lutero, tanto protestantes como católicos se valeram do medo. Eles procuravam de toda forma denunciar o outro como agente do diabo. Os protestantes pintavam o Papa com chifres e patas, enquanto os católicos divulgavam pela Europa que o reformador alemão era a encarnação do Anticristo. A mentalidade exclusivista e obtusa de pensar que aqueles que não pertencem ao grupo são, em princípio, inimigos, foi responsável por atrocidades. Quando o debate sai do campo do diálogo e passa para ataques emotivos, ouvem-se declarações comoventes – embora ridículas do tipo: eu não quero ir para o mesmo céu que ele; quem é você para mudar Deus? 
6. Rechaçar um pensamento sem ter lido a obra. Alguns se contentam com a crítica que outros fizeram e a partir dela se colocam como verdadeiros atalaias da ortodoxia. Dizer não li, não gostei é desonestidade intelectual.  E urgente desmontar a armadilha de pensar em oposição. As ideias não se anulam em seus opostos. Numa dança dialética, sintetizam-se. Rilke afirmou:  uma coisa é verdadeira apenas ao lado da outra, e penso sempre que o mundo foi projetado com espaço suficiente para abarcar tudo: aquilo que foi não precisa ser tirado do lugar, mas apenas lentamente transformado, assim como aquilo que será não cai do céu no último momento, mas já se encontra desde sempre ao nosso lado, à nossa volta e em nosso coração, esperando o aceno que o chama à visibilidade.
Somos precários, o que sabemos é tão pouco e tão provisório que toda a pretensão de alijar quem pensa diferente não passa de narcisismo onipotente. O poema de Carlos Drummond de Andrade descreve bem a postura que devemos ter:
A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
Soli Deo Gloria

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Redes sociais convocam protestos contra visita do papa

 Início

Redes sociais convocam protestos contra visita do papa

A recepção ao papa Francisco no Palácio Guanabara (sede do governo fluminense, na zona sul do Rio) será marcada por protestos convocados pelas redes sociais pelo grupoAnonymous Rio e pela Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea). A manifestação do Anonymus questiona os gastos públicos com a recepção ao pontífice e pede a saída do governador Sérgio Cabral e do vice Luiz Fernando Pezão, ambos do PMDB. Eles recepcionarão o papa. A solenidade está marcada para as 17h no palácio, com a presença da presidente Dilma Rousseff e do prefeito Eduardo Paes.
A reportagem é de Antônio Pita Sérgio Torres e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 22-07-2013.
Os manifestantes se concentrarão a partir das 18h no Largo do Machado, a 1 km do Guanabara. O grupo planeja seguir até o palácio. Na página de convocação ao evento, mais de 7 mil pessoas confirmaram presença. De acordo com a prefeitura, toda a rua em frente ao palácio estará fechada por medida de segurança.
Na convocação, o grupo esclarece que a manifestação não é contra a presença do papa nem contra a Igreja Católica. "A ideia é aproveitar a presença do papa, de seus turistas e da mídia global. Será mais um grito contra a corrupção e por serviços públicos mais dignos." A pauta divulgada pelo grupo questiona os gastos públicos estimados em R$ 118 milhões para a organização da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) e defende o estado laico.
Atea anunciou que promoverá às 17h manifestação em frente ao palácio. Temerosa de uma reação da Polícia Militar, a entidade tentou no fim de semana uma liminar judicial que proibisse a repressão policial. No sábado, a Justiça negou a liminar. A entidade recorreu. Manifestações do tipo serão promovidas pela entidade em outras capitais brasileiras, como Belo Horizonte e São Paulo, além de cidades importantes, como Ribeirão Preto(SP).
"Assim como o batismo de crianças lhes impinge uma religião, o sequestro do Estado para fins religiosos faz o mesmo com todos os demais cidadãos brasileiros, que se tornam católicos à força quando o dinheiro dos seus impostos é desviado para pagar um evento religioso. Por isso, para simbolizar o protesto contra as violações da laicidade, escolhemos o desbatismo", informa a Atea em comunicado distribuído na semana passada. No protesto, a entidade promoverá o que chamou de "desbatismo coletivo", em que os manifestantes usarão secadores de cabelo "para os ventos do secularismo varrerem as águas do batismo". "Se você não concorda com o uso de dinheiro público na JMJ, com símbolos religiosos em repartições públicas, o ´ Deus seja louvado` no dinheiro, o ensino religioso em escolas públicas..
Se você acha que barrar a camisinha e a pílula no sistema público é um absurdo, se não concorda com o veto da Igreja Católica ao divórcio, se ainda não se conformou com o acobertamento de pedófilos e a discriminação contra homossexuais... Enfim, o desbatismo é para todos aqueles que desejam protestar", diz o documento

terça-feira, 16 de julho de 2013

Bancada religiosa quer que Dilma vete projeto de atendimento a vítimas de violência sexual

 MARIA DA PENHA NELES

Bancada religiosa quer que Dilma vete projeto de atendimento a vítimas de violência sexual

Vai vendo: Bancada religiosa quer que Dilma vete projeto de atendimento a vítimas de violência sexual

"Nada no mundo é mais perigoso que a ignorância sincera e a estupidez conscienciosa" - Martin Luther King

Bancada religiosa pressiona Dilma 

Autor(es): Isabel Braga e Evandro Éboli
O Globo

Parlamentares querem veto a projeto que atende vítimas de violência sexual
Parlamentares da bancada religiosa do Congresso pressionam para que a presidente Dilma Rousseff vete projeto que regulamenta o atendimento emergencial a mulheres vítimas de violência sexual e estupro em hospitais. A proposta foi aprovada na Câmara e no Senado e já foi à sanção presidencial. Na interpretação de religiosos, um dos artigos do projeto abre brecha para a legalização do aborto.
O grupo tenta audiência com os ministros Gilberto Carvalho (Secretaria Geral) e Gleisi Hoffmann (Casa Civil). A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) tenta convencer o governo a vetar ao menos o artigo que fala em "profilaxia da gravidez". Para a bancada religiosa, essa expressão abre brecha para que a mulher possa interromper gravidez até num estágio avançado, com cinco meses de gestação. Na interpretação deles, o aborto ocorreria mesmo sem a comprovação de que a mulher foi violentada e sem apresentação de boletim de ocorrência.
Autora do projeto, a deputada Iara Bernardi (PT-SC) nega que a proposta tenha como finalidade legalizar o aborto. Segundo ela, o projeto apenas detalha os protocolos a serem seguidos quando uma mulher é vítima de violência sexual.
- A mulher vítima de violência tem que ser atendida até 72 horas após o ocorrido. Profilaxia é tomar o coquetel de remédios anti-HIV e contra DSTs, e a profilaxia da gravidez é a pílula do dia seguinte, que já está disponível no posto de saúde. É uma alternativa ao aborto em caso de estupro, previsto na Constituição - disse Bernardi.
Hoje, jovens católicos do grupo Promotores da Vida farão um ato em frente ao Planalto pedindo que Dilma vete o texto.
- Vamos mostrar à presidente que esse projeto não está em consonância com as ruas - disse o advogado Paulo Fernando, coordenador do Pró-Vida.
- É surpreendente como as coisas acontecem e a tendência do movimento abortista é legalizar geral. E não é só a bancada evangélica que é contra, o povo não concorda com isso - disse o vice-presidente da Frente Parlamentar Evangélica, deputado Pastor Eurico (PSB-PE).

terça-feira, 30 de abril de 2013

Igreja excomunga padre que defende homossexuais

Igreja excomunga padre que defende homossexuais
: Última missa do padre Beto na Igreja São Benedito. 28/04/2013 Roberto Francisco Daniel, o padre Beto, realizou suas últimas missas no último domingo em duas igrejas lotadas; ele decidiu se afastar após receber prazo para se retratar e "confessar o erro" cometido ao afirmar que existe a possibilidade de amor entre pessoas do mesmo sexo; "Não consigo ser padre numa instituição que no momento não respeita a liberdade de expressão e reflexão", declarou

segunda-feira, 29 de abril de 2013

A relação religião-mídia-política


quinta-feira, 25 de abril de 2013

A relação religião-mídia-política

Por Magali do Nascimento Cunha, no sítio da Adital:

Nestes meses de março e abril de 2013 temos lido, ouvido e assistido a um episódio sem precedentes no Congresso Nacional, que coloca em evidência a relação religião-política-mídia. Em 5 de março foi anunciada pelo Partido Social Cristão (PSC) a indicação do membro de sua bancada o pastor evangélico deputado federal Marco Feliciano (SP) como presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal (CDH). Foram imediatas as reações de grupos pela causa dos Direitos Humanos ao nome de Marco Feliciano, com a alegação de que o deputado era conhecido em espaços midiáticos por declarações discriminatórias em relação a pessoas negras e a homossexuais. 
O PSC se defendeu dizendo que seguiu um protocolo que lhe deu o direito de indicar a presidência dessa comissão, um processo que estava dentro dos trâmites da democracia tal como estabelecida no Parlamento brasileiro. Isto, certamente, é fonte de reflexões, em especial quanto ao porquê da defesa dos Direitos Humanos ser colocada pelos grandes partidos como "moeda de troca barata", como bem expôs Renato Janine Ribeiro em artigo publicado no Observatório da Imprensa (n. 740, 2/4/2013). Soma-se a isto o fato de o deputado indicado e o seu partido não apresentarem qualquer histórico de envolvimento com a causa dos Direitos Humanos que os qualificassem para o posto.

O que tem chamado a atenção neste caso, e que é objeto desta reflexão, é a "bola de neve" que ele provocou a partir das reações ao nome do deputado, formada por protestos públicos da parte de diversos segmentos da sociedade civil, mais a criação de uma frente parlamentar de oposição à eleição de Feliciano, e pelo estabelecimento de uma guerra religiosa entre evangélicos e ativistas do movimento de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT), e entre evangélicos e não-cristãos. E esta bola de neve é produto de fatores que se apresentam para além da CDH, e a expõem como um elemento a mais no complexo quadro da relação entre religião e sociedade no Brasil. Pensemos um pouco sobre estes fatores; vamos elencar quatro.

1. A reconfiguração do lugar dos evangélicos na política

Desde o Congresso Constituinte de 1986 e a formação da primeira Bancada Evangélica e seus desdobramentos, a máxima "crente não se mete em política" construída com base na separação igreja-mundo foi sepultada. A máxima passou a ser "irmão vota em irmão”.

Depois de altos e baixos em termos numéricos, decorrentes de casos de corrupção e fisiologismo, a bancada evangélica se consolidou como força no Congresso Nacional, o que resultou na criação da Frente Parlamentar Evangélica (FPE) em 2004, ampliada nas eleições de 2010 para 73 congressistas, de 17 igrejas diferentes, 13 delas pentecostais. Os parlamentares evangélicos não são identificados como conservadores, do ponto de vista sociopolítico e econômico, como o é a Maioria Moral nos Estados Unidos, por exemplo. Seus projetos raramente interferem na ordem social e se revertem em "praças da Bíblia”, criação de feriados para concorrer com os católicos, benefícios para templos. Basta conferir o perfil dos partidos aos quais a maioria dos políticos evangélicos está afiliada e os recorrentes casos de fisiologismo.

Mais recentemente é o forte tradicionalismo moral que tem marcado a atuação da FPE, que trouxe para si o mandato da defesa da família e da moral cristã contra a plataforma dos movimentos feministas e de homossexuais, valendo-se de alianças até mesmo com parlamentares católicos tradicionalistas, diálogo impensável no campo eclesiástico.

Os números do Censo 2010 são fonte para a demanda de legitimidade social entre os evangélicos, e certamente de conquista de mais espaço de influência. Estudos mostram que desde 2002, período da legislatura em que a FPE foi criada, a cada eleição, o número de evangélicos no Parlamento (Câmara e Senado) aumenta em torno de 30% do total anterior. A estimativa, mantido este índice, é de chegarem a 100 cadeiras em 2014, o que representaria em torno de 20% das 513 do Congresso, refletindo a representatividade dos evangélicos no Brasil revelada pelo Censo 2010. Este é um projeto cada vez mais nítido deste segmento social que certamente visa, como os demais grupos políticos, muito mais do que cadeiras no Congresso, mas também presidências de comissões e de ministérios relevantes (para além do único atual tímido Ministério da Pesca, sob a liderança do bispo da Igreja Universal do Reino de Deus Marcelo Crivela).

A polêmica com Marco Feliciano deixa este projeto em evidência, já que não só uma presidência inédita de comissão foi alcançada, mas também maior visibilidade aos evangélicos na política e ao próprio PSC, que tem o nome "Cristão", mas sempre se caracterizou como um partido de aluguel para quem desejasse candidatura independentemente de confissão de fé. Pelo fato de estar nas manchetes durante semanas, o PSC já prevê que Feliciano, eleito com 212 mil votos por São Paulo em 2010, se tornará um "campeão de votos" nas próximas eleições, podendo atingir um milhão de votos, e ainda alavancará a candidatura do pastor Everaldo Pereira (PSC/SP) a presidente da República. Aliado de Marco Feliciano, o pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo Silas Malafaia, figura sempre presente nas mídias, declarou: "Se o Feliciano tiver menos de 400 mil votos na próxima eleição, eu estou mudando de nome".

Mais uma vez, é possível afirmar que a cada novo episódio, a relação evangélicos- política é dinâmica complexa que inclui disputas por poder e hegemonia no campo religioso, ambição dos políticos que veem no pragmatismo dos evangélicos fonte para suas barganhas de campanha, concorrência de grupos que competem por poder sociopolítico e econômico como as empresas de mídia, como veremos adiante.

2. O conservadorismo de Marco Feliciano e de seus "soldados"

A imagem dos "evangélicos" foi construída fundamentalmente com base na identidade de dois grupos de cristãos não-católicos: os protestantes de diferentes confissões que chegaram ao Brasil por meio de missões dos Estados Unidos, a partir da segunda metade do século XIX, e os pentecostais, que aportaram em terras brasileiras na primeira década do século XX, vindos daquele mesmo país. Esta imagem sempre mostrou ao Brasil um segmento cristão predominantemente conservador teologicamente, marcado por um fundamentalismo bíblico, um dualismo que separava a igreja do "mundo"/a sociedade e um anticatolicismo.

Desta forma, não é surpresa que um pastor evangélico, no caso Marco Feliciano, reproduza em seus sermões modernos e de forte apelo emocional, uma abordagem teológica tão antiga como a que embasa a ideologia racista, por meio da leitura fundamentalista de textos do Gênesis que contêm a narrativa da descendência de Noé. Também não é surpresa que Marco Feliciano conduza sua reflexão teológica por meio de bases que justifiquem a existência de um Deus Guerreiro e Belicoso, que tem ao seu redor anjos vingadores, que destrói do Titanic a John Lenon ou aos Mamonas Assassinas, continuando o que já fazia com os povos africanos herdeiros do filho de Noé, e que, nesta linha, certamente fará aos que assumem e apregoam o homossexualismo. Menos surpreendente é ainda que o líder religioso reaja a quem lhe faz oposição ou tenha posição diferente da sua classificando-o como agente do diabo e assim foram sinalizadas a própria formação anterior da Comissão de Direitos Humanos e celebridades como o cantor Caetano Veloso.

Quem se surpreende com o que Feliciano diz e com o apoio que ele recebe de diversos segmentos evangélicos desconhece o DNA deste grupo. Não há nada de novo aqui. O que há é maior visibilidade pela projeção que a mídia religiosa e não-religiosa têm dado a este discurso. Em 2010, por exemplo, o pastor estadunidense Pat Robertson, dono de um canal de televisão, declarou que o trágico terremoto no Haiti naquele ano era consequência de um pacto dos haitianos com o diabo no passado para se tornarem independentes da França. A declaração de Robertson, amplamente veiculada, provocou manifestações contrárias em todo o mundo. As palavras de Marco Feliciano no Brasil de 2013 são apenas o eco da mesma teologia.

Há algo novo, sim, neste processo, relacionado à articulação dos apoios a Feliciano que coloca em evidência o conservadorismo, antes atribuído mais diretamente aos evangélicos, que reflete uma tendência forte na sociedade brasileira de um modo geral.

É nesse contexto que o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), suplente da CDH, afirmou que se sente como "irmão” do presidente da comissão. "Como capitão do Exército, sou um soldado do Feliciano", declarou Bolsonaro, em matérias divulgadas pelas mídias em 27 de março, e acrescentou: "A agenda antes era outra, de uma minoria que não tinha nada a ver. Hoje, representamos as verdadeiras minorias. Acredito no Feliciano, de coração. Até parece que ele é meu irmão de muito tempo. Não sinto mais aquele cheiro esquisito que tinha aqui dentro e aquele peso nas costas. Aqui, era uma comissão que era voltada contra os interesses humanos, contra os interesses das crianças e contra os interesses da família. Agora, essa comissão está no caminho certo. Parabéns, Feliciano".

O deputado Bolsonaro tem um histórico de posicionamentos racistas e de conflito com ativistas sociais e militantes de movimentos gays. Em novembro de 2011, ele chegou a pedir, da tribuna da Câmara, à presidente Dilma Rousseff para que ela assumisse se gostava de homossexuais. Em março do mesmo ano, respondeu que "não discutiria promiscuidade" ao ser questionado em um programa de TV pela cantora Preta Gil sobre como reagiria caso o filho namorasse uma mulher negra.

No campo das igrejas, o já citado pastor Silas Malafaia, conhecido por polêmicas midiáticas desde a campanha presidencial de 2010, se alistou nas fileiras do deputado Feliciano e se tornou seu árduo defensor e colaborador desde o início da controvérsia da presidência da CDH. Até a Igreja Católica, explícita em suas posições quanto à ampliação de direitos civis de homossexuais, mas clássico "inimigo" dos evangélicos, é colocada por Feliciano na lista de aliados. Em entrevista à TV Folha-UOL (2/4/2013), o deputado explicitou: "Tenho alguns contatos com algumas pessoas da CNBB, mas com os grandes líderes do movimento católico não tive contato até porque quase não tenho tempo. Acredito que, nesse momento, todos eles me conhecem até porque o que eu sofro hoje de perseguição dado ao movimento LGBT, a Igreja Católica sofre isso no mundo todo. Inclusive, o novo papa, o papa Francisco, na Argentina quase foi linchado por esse grupo. Então, nós temos algumas coisas que, acredito, nos fazem pensar igual.(...) Eu fiquei feliz por termos ali um papa que ainda é bem ortodoxo, é bem conservador e que prima por aquilo eu acredito também, que a família é a base da sociedade. Aliás, a família é antes da sociedade".

Estas alianças estão produzindo efeitos até na qualidade do discurso de Marco Feliciano. Os benefícios proporcionados pela aproximação com lideranças mais experientes ficam evidentes nas mudanças no discurso do deputado como: "Só saio da presidência da CDH morto" para "Só saio da presidência da CDH se os deputados condenados pelo julgamento do mensalão, José Genoíno e João Paulo Cunha, deixarem a Comissão de Constituição e Justiça". Com isso, Feliciano atraiu para si a simpatia da mídia que se fartou na cobertura do julgamento do Superior Tribunal de Justiça e de segmentos conservadores, que, embora não concordem com seu nome na presidência da CDH, querem "a cabeça" dos condenados. Feliciano usa uma controvérsia ética para justificar a controvérsia de sua própria eleição - a CDH como moeda de troca partidária.

Alianças do religioso com o não-religioso formando exércitos que marcham em defesa da moral e dos bons costumes - em defesa da família - não é algo novo no Brasil, mas é bastante novo no espaço político que envolve os evangélicos e suas conquistas na esfera pública. Em matéria na Folha de São Paulo, de 7/4/2013, o diretor do instituto de pesquisa Datafolha, Mauro Paulino, declarou que o discurso de Feliciano atinge preocupações de parte da população: "Entre os brasileiros, 14% se posicionam na extrema direita. As aparições na imprensa dão esse efeito de conferir notoriedade a ele." Isto significa que apesar dos tantos slogans divulgados em manifestações presenciais e nas redes sociais - "Feliciano não me representa" - Feliciano, Bolsonaro e tantos outros são eleitos e ganham espaço e legitimidade. Portanto, há quem se sinta representado, sim, não somente do ponto de vista da popularidade mas do peso das articulações ideológicas em curso na sociedade brasileira.

3. Inimigos, um componente do imaginário evangélico

Exércitos precisam de inimigos. A teologia de um Deus Guerreiro e Belicoso sempre esteve presente na formação fundamentalista dos evangélicos brasileiros, compondo o seu imaginário e criando a necessidade da identificação de inimigos a serem combatidos. Historicamente a Igreja Católica Romana sempre foi identificadas como tal e sempre foi combatida no campo simbólico mas também no físico-geográfico. Da mesma forma as religiões afro-brasileiras também ocupam este lugar, especialmente, no imaginário dos grupos pentecostais.

Periodicamente, estes "inimigos" restritos ao campo religioso perdem força quando ou se renovam, como é o caso da Igreja Católica, a partir dos anos de 1960, ou quando aparecem outros que trazem ameaças mais amplas. Assim foram interpretados os comunistas no período da guerra fria no mundo e da ditadura militar. Há também um imperativo imaginário de se atualizar os combates, quando a insistência em determinados grupos leva a um desgaste da guerra. Durante o processo de redemocratização brasileira nos anos 80, o espaço que vinha sendo conquistado pelo Partido dos Trabalhadores, interpretado como nítido representante do perigo comunista, foi reconhecido como ameaça e campanhas evangélicas contra o PT reverberaram de forma religiosa o que se expunha nas trincheiras da política.

Com o enfraquecimento do ideal comunista nos anos 90 e com o PT chegando ao poder nacional com o apoio dos próprios evangélicos, a força das construções ideológicas estadunidenses abriu lugar à atenção à ameaça islâmica e houve algum espaço entre evangélicos no Brasil para discursos de combate ao islam. No entanto, como esta ameaça está bem distante da realidade brasileira - não se configura um inimigo tão perigoso nestas terras -, emerge, mais uma vez, o imperativo de se atualizar os combates. Não mais catolicismo, nem comunismo, não tanto islamismo... quem se configuraria como novo inimigo? Desta vez, um inimigo contra a religião e seus princípios, contra a Bíblia, contra Deus, contra o Brasil e as famílias: o homossexualismo.

Declarações de Marco Feliciano na mídia noticiosa expressam bem este espírito belicoso: "É um assunto tão podre! Toda vez que se fala de sexo entre pessoas do mesmo sexo ninguém quer colocar a mão, porque é podre. Por causa disso, um grupo de 2% da população – os gays – consegue se levantar e oprimir uma nação com 90% de cristãos, entre católicos e evangélicos, e até pessoas que não têm religião, mas que primam pelo bem-estar da família, pelo curso natural das coisas" (Rede Brasil Atual, 1/3/2013). "Existe uma ditadura chamada (...) "gayzista". Eles querem impor o seu estilo de vida e a sua condição sobre mim. E eles lutam contra a minha liberdade de pensamento e de expressão. Eles lutam pela liberdade sexual deles. Só que antes da liberdade sexual deles, que é secundária, tem que ser permitida a minha liberdade intelectual. A minha liberdade de expressão. Eu posso pensar. Se tirarem o meu poder de pensar, eu não vivo. Eu vegeto e morro". (TV Folha-UOL, 2/4/2013).

Consequência da eleição de inimigos e do combate a eles é o discurso de que há uma perseguição a quem se faz contrário, promovida pelo maior inimigo de Deus, Satanás. Esta ideia está claramente presente em afirmações de Feliciano como: "Eu morro, mas não abandono minha fé"; "A situação está tomando dimensões muito estranhas. É assustador, estou me sentindo perseguido como aquela cubana lá. Como é o nome? A Yoani Sánchez"; "Se é para gritar, tem um povo que sabe o que é grito. [...] Nós (evangélicos) sabemos qual é o poder da nossa fé".

A insistência da mídia noticiosa em enfatizar a guerra Feliciano-homossexuais, com o lado "inimigo" representado por um deputado, na mesma condição do primeiro, Jean Wyllys (PSOL/RJ), ativista do movimento LGBT, só faz reforçar a reconstrução do imaginário evangélico da guerra aos inimigos e da perseguição consequente. Isso tem gerado manifestações diversas de apoio a Feliciano entre evangélicos dos mais diferentes segmentos e ações como a da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), realizada em Brasília neste abril, que aprovou uma moção de apoio a Feliciano, aprovada em votação simbólica por unanimidade. Feliciano agradeceu o apoio dizendo que "nunca houve uma comissão com tanta oração. Os pastores estão orando pela minha vida e pela comissão. Venceremos esta batalha".

Há ainda uma explosão de postagens em nas mídias digitais, em especial nas redes sociais. Por exemplo, uma montagem com foto de Marco Feliciano com uma faixa presidencial tem sido veiculada por usuários do Facebook, e, na primeira semana de abril já havia superado a marca de 65 mil compartilhamentos. A campanha pede que favoráveis à candidatura do pastor à presidência da República em 2014 compartilhem a imagem para demonstrar força nas redes sociais: "Campanha urgente: Marco Feliciano presidente do Brasil”, diz o texto.

Uma segunda imagem com comparações entre Marco Feliciano e Jean Wyllys também veiculada no Facebook, já havia superado 100 mil compartilhamentos em meados de abril, registrando mais de 7,5 mil comentários. Na imagem, há dados sobre o número de votos de cada um dos deputados, além de comparações entre as bandeiras políticas defendidas por cada um deles. A imagem quando compartilhada revela declarações pessoais de quem "curtiu" com texto que manifesta apoio ao pastor Feliciano: "Eu sou cristão, a favor da democracia, da vida e da família brasileira. Marco Feliciano me representa”.

A declaração de Silas Malafaia à Folha de São Paulo (7/4/2013) sobre a repercussão do caso entre os evangélicos e simpatizantes reflete bem este espírito: "Quero agradecer ao movimento gay. Quanto mais tempo perderem com o Feliciano, maior será a bancada evangélica em 2014".

Toda e qualquer análise e ação em torno da presença dos evangélicos nas mídias e na política não pode ignorar esta dimensão do imaginário da necessidade da criação de inimigos e da consequente perseguição. Isto é característico de religiões numericamente não-majoritárias, sendo portanto, fruto, entre outros aspectos, do caráter minoritário da presença evangélica em terras brasileiras.

4. As transformações e as revelações na relação mídia-religião

O histórico da presença evangélicas nas mídias não-religiosas no Brasil revela a hegemonia católica romana que vem pouco a pouco sendo diminuída por conta do espaço que os evangélicos vêm conquistando na esfera pública. Enquanto católicos sempre apareceram para expressar sua fé nas datas clássicas do calendário religioso e para se manifestar sobre temas amplos, à exceção dos casos controversos inevitáveis como a pedofilia praticada por clérigos, cuidadosamente tratados, evangélicos tinham espaço garantido quando se tratava de escândalos de corrupção ou situações bizarras.

Na última década, a expressiva representatividade dos evangélicos no país com o consequente declínio do catolicismo, e a ampliação de sua presença nas mídias e na política, torna este segmento não só visível mas um alvo mercadológico. As mídias passam a prestar a atenção no segmento e na lucratividade possível, em torno da cultura do consumo vigente.

Um exemplo ilustrativo se dá quando um personagem, por vezes protagonista, por vezes coadjuvante, como o pastor Silas Malafaia, que assume o papel da pessoa controvertida em todo este contexto e constrói sua imagem midiática como "aquele que diz as verdades”, é convidado para uma conversa com o vice-diretor das Organizações Globo, João Roberto Marinho (PINHEIRO, Daniela. Vitória em Cristo. Revista Piauí, n. 60, set 2011). Aí é possível identificar o patamar em que se encontra o segmento evangélico nas mídias. Segundo depoimento do pastor depois da conversa, Marinho teria alegado precisar conhecer mais o mundo dos evangélicos já que a emissora teria percebido que Edir Macedo não seria "a voz” dos protestantes no Brasil. O pastor Malafaia ganhou, então, trânsito em um canal destacado de comunicação e teve várias aparições no programa de maior audiência da Rede Globo, o Jornal Nacional.

Além do contato com Malafaia, as Organizações Globo, por meio da gravadora Som Livre, já contrataram grandes nomes do mercado da música evangélica que têm, a partir daí, espaço garantido na programação da Rede Globo. A Globo tirou da Rede Record, em 2011, o evento de premiação dos melhores da música evangélica, tendo criado o Troféu Promessas. A Rede Globo é também, a partir de 2011, patrocinadora de eventos evangélicos como a Marcha para Jesus e de festivais gospel. Noticiário inédito do mundo evangélico tem ganhado espaço na Rede, como por exemplo, a matéria sobre a reeleição de José Wellington Bezerra à presidência da Convenção Geral das Assembleias de Deus veiculada em matéria de 1'44 no Jornal da Globo, de 1'52 na Globo News, em 11 de abril, além de nota na CBN e no portal G1.

Neste contexto, o caso Marco Feliciano tem sido amplamente tratado pela grande mídia. Feliciano já foi entrevistado por todos os grandes veículos de imprensa e já participou dos mais variados programas de entretenimento - de talk-shows a games. Foi tratado com simpatia na entrevista de Vejae defendido pelo jornalista Alexandre Garcia em comentário na Rádio Metrópole (5/4/2013) com o argumento de "liberdade de opinião". Fica nítido que estes veículos não desprezam a dimensão do escândalo e da bizarrice relacionada ao caso, somada à atraente questão da homossexualidade que mexe com as emoções e paixões humanas e expõe a vida íntima de celebridades, como o caso da cantora Daniela Mercury que veio à tona na trilha desta história.

No entanto, o amplo espaço dado para que Feliciano e seus aliados exponham seus argumentos e sejam exibidos como simpáticos bons sujeitos revela que estas personagens ganham um tratamento bastante afável em comparação à execração imposta a outras em situações críticas da política brasileira, como a que envolveu os parlamentares do PT. Não temos aqui apenas os evangélicos como um segmento de mercado a ser bem tratado, mas, retomando a constatação de que Feliciano, Malafaia e Bolsonaro representam uma parcela conservadora da sociedade brasileira, é possível que haja uma identidade entre estes líderes e quem emite e produz conteúdos das mídias. Afinal, é a mesma mídia que constrói notícias sobre crimes protagonizados por crianças e adolescentes de forma a promover uma "limpeza" das cidades por meio de campanha por redução da maioridade penal no Brasil, ou que veicula programas que trazem enquetes durante um noticiário sobre crimes urbanos que indagam: "Ligue XXX ou YYY para indicar qual pena merece o criminoso? XXX para prisão ou YYY para morte".

São transformações na relação mídia e religião, com efeitos políticos, que merecem ser monitoradas e esclarecidas, tendo em vista a complexidade das relações sociais, em especial no que diz respeito à religião, e que devem ser potencializadas no ano eleitoral que se aproxima.

Um paradigma

O caso Marco Feliciano pode ser considerado um paradigma pelo fato de ser a primeira vez na história em que os evangélicos se colocam como um bloco organicamente articulado, com projeto temático definido: uma pretensa defesa da família. Com a polarização estimulada pelas mídias entre o deputado Feliciano e ativistas homossexuais foi apagada a discussão de origem quanto à indicação do seu nome em torno das afirmações racistas e de seu total distanciamento da defesa dos direitos humanos.

Torna-se nítida uma articulação política e ideológica conservadora em diferentes espaços sociais - do Congresso Nacional às mídias - que reflete um espírito presente na sociedade brasileira, de reação a avanços sociopolíticos, que dizem respeito não só a direitos civis homossexuais e das mulheres, como também aos direitos de crianças e adolescentes, às ações afirmativas (cotas, por exemplo) e da Comissão da Verdade, e de políticas de inclusão social e cidadania. Nesta articulação a religião passa a ser instrumentalizada, uma porta-voz.

A postagem de um pastor de uma igreja evangélica no Facebook reflete bem este espírito: "Devemos nos unir cada vez mais, já somos milhões de evangélicos no Brasil, fora os simpatizantes. Temos força, é claro que nossa força vem de Deus. Precisamos nos mobilizar contra as forças das trevas, que querem desvirtuar os bons costumes e a moral e, principalmente que querem afetar a honra da família. Se o meu povo que se chama pelo meu nome se humilhar e orar, não tem capeta que resista". E as palavras de Marco Feliciano ecoam como profecia: "Graças a Deus permanecemos firmes até aqui. Chegará o tempo que nós, evangélicos, vamos ter voz em outros lugares. O Brasil todo encara o movimento evangélico com outros olhos".

Nesse sentido é possível afirmar que os grupos políticos e midiáticos conservadores no Brasil descobriram os evangélicos e o seu poder de voz, de voto, de consumo e de reprodução ideológica. A ascensão de Celso Russomano nas eleições municipais de São Paulo, em 2012, já havia sido exemplar: um católico num partido evangélico, apoiado por grupos evangélicos os mais distintos. A eleição da presidência da CDH é paradigmática no campo nacional e ainda deve render muitos dividendos a Feliciano, ao PSC, à Bancada Evangélica e a seus aliados. O projeto político que se desenha, de fato, pouco ou nada tem a ver com a defesa da família... os segmentos da sociedade civil, incluindo setores evangélicos não identificados com o projeto aqui descrito, que defendem um Estado laico e socialmente justo, têm grandes tarefas pela frente.

* Magali do Nascimento Cunha é autora do livro A Explosão Gospel. Um Olhar das Ciências Humanas sobre o cenário evangélico contemporâneo (Ed. Mauad)].
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