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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Mesmo quando dói

Mesmo quando dói:

Mesmo quando dói

Ricardo Gondim

Há momentos em que o dia a dia perde sentido. O acesso aos sonhos fica comprometido. Entopimos as frestas por onde pode soprar a brisa do espírito. Nossos olhos, feito janelas cerradas, não deixam entrar colorido na alma. Nesses hiatos, substituímos confiança com decepção. Nossa tristeza apaga o ímpeto de seguir adiante. Nossa infelicidade nos abate. O calor de pelejar nos sucumbe à inação. Não sobra no peito a energia fundamental de amar. Com o coração quebrado gritamos lamentos. Sentimos o granito ceder e ficamos sem pé. A decepção esgota-se a fonte do entusiasmo. Nossas balizas existenciais caem e nossa estrada perde o norte. Os diques da amargura se rompem e nos vemos à deriva.

Há momentos em que o silêncio absoluto e impenetrável da covardia abafa nossa coragem. O império da culpa confisca nossa confiança. O pavor do inesperado transforma nossa alma em masmorra. Os sonhos definham. Sentimos a força do imobilismo. Soturnos, só pensamos em compor réquiens. Na poesia, versificamos as palavras que rimam com tédio. Procuramos metáfora para fatiga. O espírito faz melodia aos soluços.

Há momentos em que insistimos por mera teimosia. As escolhas acontecem, mas empurradas pela inércia de tempos bem vividos. Tangemos a vida, sem ânimo. Optamos pela solitude. Se vamos adiante é por constrangimento. Basta-cumprir o horário e acabar a tarefa. No tabuleiro, contentamo-nos em desempenhar o peão, resignado com a sorte de proteger o rei. No palco, aceitamos a sina de marionete, que dança sob os dedos do títere. Na vida, não reclamamos em nos perder na multidão que repete roteiros impostos.

Há momentos em que já não conseguimos retroceder. Parece que uma voz sinistra nos ordenar a marchar: O próximo, o próximo, o próximo. Estamos numa fila obediente. Cabisbaixos, acatamos a sentença lúgubre: Desçam.  Mas nos damos conta que, apesar de toda a resiliência e toda a determinação, como um só rebanho, seguimos para o último e inusitado compromisso: a morte.

Nesses momentos sóbrios, precisamos trazer à memória o que pode nos dar esperança. Remontar os pedaços de alegria que ficaram no passado e, com ternura, revivê-los em rodas de conversa com amigos. Nada trouxemos a este mundo, mas não sairemos dele de mãos vazias. Nossas memórias nos acompanharão por quaisquer outros universos que ainda habitaremos. Nossa riqueza serão o sorriso que provocamos, a gratidão que oferecemos, o instante de ternura que repartimos e o riso que despertamos.

Nesses momentos em que depuramos a vida dos idealismos, não nos resta outra saída senão a companhia de amigos. Pais, mulher, filhos, irmãos, eles encarnam os traços mais sutis do divino. Toda a fortuna não substitui o abraço demorado de quem nos enchia de saudade. Todas regalias do poder não valem a paz de deitar e logo pegar no sono depois de uma refeição temperada com muita gargalhada.

Nesses momentos em que a vida estanca, e topamos com nossa precariedade, devemos transformar qualquer dia em um sábado. Se acharmos uma caverna para nos esconder, melhor ainda. Se conseguirmos nos exilar em algum deserto, podemos nos reinventar. Mesmo em meio a dores infernais, Deus povoará nossas interjeições mais tristes. Habacuque, o profeta bíblico, afirmou: Mesmo não florescendo a figueira, não havendo uvas nas videiras; mesmo falhando a safra de azeitonas, não havendo produção de alimento nas lavouras, nem ovelhas no curral nem bois nos estábulos,
todavia, eu exultarei no Senhor e me alegrarei no Deus da minha salvação [3.17-18].

Rubem Alves nos ensinou que Deus habita nessa conjunção: TODAVIA. E há momentos em que ela nos basta para seguir em frente.

Soli Deo Gloria

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