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segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O rosto da Pietá

O rosto da Pietá
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O rosto da Pietá
Ricardo Gondim
Haverá mãe que possa esquecer seu bebê que ainda mama e não ter compaixão do filho que gerou? Embora ela possa esquecê-lo, eu não me esquecerei de você!
Isaías 49.15

Guardo uma miniatura da Pietá. Contrariando a tradição protestante iconoclasta que não permite imagens de escultura, comprei uma pequena réplica da famosa escultura de Michelangelo. Dois motivos me impulsionaram a parar diante do camelô italiano e pagar para trazer a virgem senhora que carrega no colo o filho morto. Desejei preservar por mais tempo o sentimento que invadiu o meu peito quando contemplei a imagem pela primeira vez na basílica de São Pedro; também senti o impulso de que deveria lembrar, por anos, aquele amor vigoroso, que a pedra não conseguiu tornar frio ou inexpressivo.
O rosto da jovem talhada em pedra expressa dor. Só um gênio conseguiria pegar um bloco de mármore e cinzelar o sofrimento da virgem mãe. Conheço a dificuldade do escritor quando tenta traduzir em palavras angústias vividas. Estarrecido, celebro Michelangelo. Ele escreveu na pedra a dor mais profunda. A dor de Maria.
No dia em que parei diante da Pietá, a manhã chuvosa de Roma parecia chorar uma neblina lenta. Eu estava diante de Maria segurando o filho morto. De repente, vi que as chuvas dos séculos foram suas lágrimas. Não consegui mover os pés, os olhos de Maria me seduziram; sua dor se entranhou em mim e passou a ser minha. Percebi que a jovem mulher não segurava um Messias ou o Salvador do mundo; em seu colo não jazia a esperança de Israel. Ele era apenas o seu filho. Notei que seus braços seguravam o menino que amamentou, o adolescente que viu crescer e brincar nas ruas pobres e poeirentas da Palestina. A mulher que abraçava o filho não era a Maria idealizada pela tradição cristã, apenas uma mãe sofrida, que não continha o tamanho de seu luto, mesmo petrificada. Derramei o meu pingo de neblina. Chorei diante da estátua porque dentro de mim mora um menino órfão. Eu tenho saudade do colo da Maria (mamãe se chamava Glícia Maria) que me acolheu em seu regaço.
Contemplo a Pietá e sou lembrado do grande amor de Deus. Nas muitas especulações sobre Deus, algumas fracassam por não intuírem seu amor. Assim como o escultor conseguiu fazer uma pedra transpirar o afeto, eu anseio que mais pessoas encarnem esse amor. O Testamento Cristão procura retratar exatamente o que Michelangelo esculpiu no rosto de Maria: o sofrimento de Deus diante do escárnio político e da morte desnecessária. A Pietá foi talhada mais jovem do que o homem que ela lamenta em seu colo. Michelangelo explicou a razão de esculpir a mãe mais jovem do que o filho: o amor perfeito nunca envelhece. Quando me sinto só procuro trazer à lembrança a promessa de que alguém que me ama, entende e partilha da minha solidão. Os olhos que me acolhem não são plácidos, mas feridos, como os meus.
Soli Deo Gloria
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